Comércio Exterior e Assuntos Regulatórios: agenda hoje mais estratégica do que nunca para a indústria T&C
24/07/2026
Autora: Patrícia Pedrosa, Gerente da área de Comércio Exterior e Assuntos Regulatórios da Abit
Durante muito tempo, quando discutíamos comércio internacional, as tarifas eram o principal foco das empresas. Afinal, reduzir custos de importação e exportação sempre foi um fator determinante para ampliar a competitividade dos negócios. Hoje, esse cenário mudou profundamente.
As tarifas continuam relevantes, em especial para o setor têxtil e de confecção, mas passaram a dividir espaço com um conjunto muito mais amplo de exigências regulatórias que, em muitos casos, se tornaram decisivas para determinar quem consegue ou não acessar determinados mercados.
Rastreabilidade, sustentabilidade, substâncias químicas restritas, logística reversa, regras de origem, etiquetagem, monitoramento da cadeia produtiva com foco em trabalho. Todos esses temas passaram a integrar a estratégia das empresas que desejam competir em um ambiente internacional cada vez mais complexo.
Tal transformação ganha dimensão ainda maior para a indústria têxtil e de confecção brasileira após a entrada em vigor provisória do Acordo de Livre Comércio entre Mercosul e União Europeia, em maio de 2026.
Naturalmente, a redução gradual das tarifas representa uma oportunidade importante para ampliar a competitividade dos produtos brasileiros no mercado europeu. Mas essa vantagem somente poderá ser plenamente aproveitada pelas empresas que compreenderem, desde já, que exportar hoje significa muito mais do que vender um produto de qualidade a um preço competitivo.
Significa atender a um conjunto de requisitos técnicos, ambientais e regulatórios cada vez mais rigorosos. Um dos exemplos mais claros está nas regras de origem previstas no acordo com a União Europeia. Para que um produto possa usufruir da preferência tarifária, requisitos específicos que definem o que efetivamente caracteriza sua origem precisam ser cumpridos. No caso do vestuário, por exemplo, o tecido precisa ter sido produzido em um dos países signatários do acordo, ainda que o fio utilizado tenha outra procedência. São detalhes técnicos que fazem toda a diferença na prática e que exigem preparo das empresas.
É justamente nesse contexto que o trabalho desenvolvido pela Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) em Comércio Exterior e Assuntos Regulatórios ganha ainda mais relevância.
Nosso papel vai muito além de representar o posicionamento do setor durante as negociações de acordos comerciais e de defender seus interesses em temas que afetam o comércio exterior como, por exemplo, as tarifas adicionais aplicadas recentemente pelos Estados Unidos. Trabalhamos para traduzir essas mudanças para a realidade das empresas, promovendo seminários, reuniões técnicas e iniciativas de capacitação que permitam ao setor compreender não apenas as oportunidades, as necessidades de adaptação e eventuais riscos nesse ambiente internacional dinâmico, cheio de mudanças e incertezas.
Ao mesmo tempo em que acompanhamos os avanços internacionais, também buscamos contribuir para a construção de uma agenda regulatória brasileira equilibrada, com foco na ampliação da competitividade do setor têxtil e de confecção do Brasil e que contribua para uma concorrência mais justa com os produtos importados.
Dois exemplos ilustram esse movimento. O trabalho da entidade de conscientização do mercado e cobrança por parte das autoridades governamentais, inclusive por meio de aprimoramentos legislativos, para o efetivo cumprimento de requisitos técnicos na comercialização de produtos do setor têxtil e de confecção no comércio eletrônico nacional e transfronteiriço.
Uma contribuição objetiva da Abit nesse tema foi o lançamento do Guia de Etiquetagem Têxtil para E-commerce feito em parceria com o IPEM-SP que orienta empresas sobre o correto cumprimento das exigências legais relacionadas à etiquetagem de produtos têxteis comercializados por meio do comércio eletrônico, em conformidade com o Regulamento Técnico Mercosul sobre Etiquetagem de Produtos Têxteis.
Outro tema que já ocupa espaço crescente nessa agenda é a logística reversa, cuja evolução também exigirá cada vez mais integração entre os diferentes elos da cadeia produtiva. Por isso, iniciamos, em parceria com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), um estudo que tem como objetivo criar um diagnóstico nacional sobre a destinação e valorização de resíduos têxteis industriais e pós-consumo para implementar diretrizes de logística reversa e economia circular no setor.
A lógica é simples. Mais do que apenas reagir às mudanças que surgem, queremos contribuir para a construção de um ambiente regulatório que seja moderno, equilibrado e adequado à realidade da indústria brasileira.
Toda essa discussão ganha especial importância em um momento de profundas transformações no comércio internacional. Conflitos geopolíticos, mudanças nas políticas comerciais, novas barreiras regulatórias e medidas tarifárias adotadas por diferentes países alteraram significativamente a dinâmica dos mercados globais. Ao mesmo tempo em que surgem novas oportunidades, aumentam também os desafios para empresas que competem tanto no mercado externo quanto no mercado interno.
Mesmo aquelas companhias que não possuem projetos imediatos de exportação convivem diariamente com produtos importados e com consumidores cada vez mais atentos às exigências relacionadas à sustentabilidade, rastreabilidade e conformidade regulatória. Em outras palavras, acompanhar essa agenda deixou de ser uma opção. Passou a ser um fator de competitividade.
É exatamente por essa razão que esses temas ocupam posição de destaque nas discussões promovidas pela Abit e estarão ainda mais presentes no Congresso Internacional Brasil 2026, que se realizará nos dias 14 e 15 de outubro, em Fortaleza. Desde 2016, nossos congressos têm cumprido a missão de aproximar a indústria brasileira das principais tendências que moldam o futuro do setor têxtil e de confecção no mundo.
Nesta edição, a vocação ganha uma dimensão verdadeiramente internacional. Pela primeira vez, o evento será realizado em parceria com duas das mais importantes entidades globais da indústria: a InternationalTextileManufacturers Federation (ITMF) e a InternationalApparel Federation (IAF). Essa cooperação amplia significativamente o alcance do Congresso e fortalece a presença de representantes de diferentes regiões do mundo, promovendo uma visão global sobre os desafios regulatórios que afetam toda a cadeia têxtil.
No segundo dia do evento, o Painel 5 será dedicado exclusivamente aos temas regulatórios, reunindo representantes das entidades de classe do setor têxtil e de vestuário da União Europeia (EURATEX) e dos Estados Unidos (AAFA) – importantes mercados para as exportações brasileiras e que hoje lideram grande parte das discussões internacionais envolvendo os temas abordados nesse artigo. Será uma oportunidade singular para compreender como essas agendas estão sendo construídas e quais impactos terão sobre as empresas brasileiras.
O Brasil reúne atributos importantes para ocupar uma posição cada vez mais estratégica nesse cenário. Temos uma cadeia produtiva integrada, forte produção de algodão certificado, matriz energética predominantemente renovável e um mercado consumidor de grandes dimensões. São características que favorecem tanto a atração de investimentos quanto a ampliação da presença internacional da indústria brasileira. Mas transformar essas vantagens em competitividade exige preparação. Exige atualização permanente. Exige conhecimento. E exige participação ativa nas discussões que definirão as regras do comércio internacional nos próximos anos.
Na Abit, seguimos trabalhando para que nossa indústria não apenas acompanhe essas transformações, mas participe da construção desse futuro, fortalecendo sua competitividade, ampliando oportunidades de negócios e consolidando o Brasil como um protagonista cada vez mais relevante na cadeia global do têxtil e da confecção.